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quarta-feira, 27 de março de 2013

Entenda a complexa relação entre o papa e os Kirchner



O conflito entre o governo argentino e o setor agrícola do país, em 2008, e a aprovação do casamento gay, em 2010, foram marcos na deterioração da relação do agora papa e da Presidência de Cristina Kirchner.
Mas a tensão entre o kirchnerismo e o então cardeal Jorge Mario Bergoglio já havia germinado anos antes, durante o mandato do ex-presidente Néstor Kirchner.
Sabe-se que Cristina e o papa Francisco não são os melhores amigos. Bergoglio, que por seis anos foi presidente da Conferência Episcopal Argentina, criticou abertamente muitas das decisões políticas da presidente.
Essa tensão chegou ao ápice à época da aprovação, em 2010, do casamento homossexual na Argentina, mas as diferenças vêm desde antes disso.
Néstor Kirchner, morto em 2010, chegou a chamar Bergoglio de "chefe espiritual da oposição política".
O distanciamento começou um ano depois da chegada de Kirchner ao poder, em 2003. Em um de seus sermões, Bergoglio questionou "o exibicionismo e os anúncios estridentes dos governantes", em mensagem que, ainda que não o citasse, parecia dirigida ao então presidente.
Em 2005, Kirchner anunciou que não participaria da tradicional celebração de 25 de maio na Catedral de Buenos Aires (data em que se comemora o início do governo independente da Espanha, a partir de 1810).
Meses depois, um porta-voz de Bergoglio anunciou: "não há relação da Igreja com o governo".
Desde então, esses laços estremeceram, agravados pelo fato de Kirchner acreditar que Bergoglio articulava um projeto oposicionista.

Catedral e críticas

Com a chegada de Cristina à Presidência, em 2007, a celebração de 25 de maio serviu novamente de termômetro do grau de estranhamento entre Bergoglio e o governo.
A correspondente da BBC Mundo na Argentina, Veronica Smink, explica que Cristina sempre evita ir à Catedral de Buenos Aires para não ter de escutar as críticas de Bergoglio sobre a pobreza e a desigualdade.
Mas não são essas as principais causas do estranhamento entre os dois. Em março de 2008, poucos meses após sua posse, Cristina apresentou a resolução 125, mudando regras para exportação de algumas commodities e desatou uma das piores crises de seu governo - provocando greves e bloqueio de vias em apoio ao setor agrícola.
A resolução acabou sendo derrubada com voto do então vice-presidente Julio Cobos, no Senado.
Na época, Bergoglio se alinhou com os produtores agrícolas e chegou a pedir "um gesto de grandeza" da presidente, para pôr fim ao conflito. Também se reuniu com Cobos, que acabou rompendo com Cristina.
Para o sociólogo Juan Nicolás, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, "o gesto de Bergoglio marcou o que seria a relação do Episcopado com o Governo, principalmente se levarmos em conta que o governo de Cristina havia acabado de começar".

Desavenças em temas sociais

O governo e o cardeal superaram os altos e baixos, mas a relação não chegou a se normalizar. E voltou a piorar com o projeto de casamento entre pessoas do mesmo sexo, em julho de 2010.
A uma semana da aprovação do projeto, Bergoglio escreveu uma carta criticando duramente a iniciativa. "Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é apenas o instrumento), mas sim de uma (...) mentira que pretende confundir e enganar os filhos de Deus", dizia a carta.
Cristina respondeu se dizendo "preocupada com o tom do discurso" de Bergoglio e alegando que o projeto visava lidar "com uma realidade que já existe".
Assim que soube da eleição de Bergoglio como papa, especulou-se qual seria a reação de Cristina. Esta, pelo Twitter, divulgou uma carta cordial, "saudando e expressando felicidades" pela escolha do pontífice.
Acredita-se que, apesar do tom frio da mensagem, o fato de Cristina ter confirmado sua presença na primeira missa solene do papa Francisco, no Vaticano, seja significativo para a distensão entre os dois.
O sociólogo Juan Nicolás concorda e opina que a presença de Cristina na praça São Pedro possa servir para a aproximação de seu governo com o Vaticano.


De agência BBC BRASIL




domingo, 13 de janeiro de 2013

Por um Irã sem gays

Com a bênção dos aiatolás, governo do Irã incentiva e subsidia cirurgias de mudança de sexo em nome de manter o país 'livre do homossexualismo'


Quando criança, Sara preferia jogar futebol com os meninos a brincar de boneca. Mocinha, ela passou a sofrer todo dia por ter que usar véu e roupas femininas.

Hoje com 17 anos, Sara diz ter certeza de que nasceu com o sexo errado. Se conseguir convencer as autoridades, ela ganhará permissão e subsídio para ser operada e adotar uma nova identidade, com nome masculino.

A República Islâmica do Irã abençoa e incentiva operações de troca de sexo, em nome de uma política que considera todo cidadão não heterossexual como espírito nascido no corpo errado.

Com ao menos 50 cirurgias por ano, o país é recordista mundial em mudança de sexo, após a Tailândia.

Oficialmente, gays não existem no país. Ficou famosa a frase do presidente Mahmoud Ahmadinejad dita a uma plateia de estudantes nos EUA em 2007, de que "não há homossexuais no Irã". A homossexualidade nem consta da lei. Mas sodomia é passível de execução.

Já transexuais, aos olhos dessa mesma lei, são heterossexuais vítimas de uma doença curável mediante cirurgia.

Essa visão partiu do próprio fundador da república islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini, que emitiu em 1984 um decreto tornando o procedimento lícito.

Khomeini comoveu-se com o caso de Feyreddun Molkara, um devoto xiita que o convencera de que era mulher presa em corpo de homem.

A bênção aos transexuais continuou após a morte de Khomeini, em 1989, apesar da objeção de alguns clérigos.

Prevaleceu a corrente que defende a mudança de sexo como prova de que o islã xiita, dominante no Irã, capta melhor a mensagem divina.

"Sunitas dizem que é mexer com a criação divina. [...] Mas ninguém está mudando o atributo na natureza criada por Deus. O humano continua humano", escreveu o clérigo Mohammad Mehdi Kariminia, simpatizante dos transexuais. "Trata-se apenas de sintonizar corpo e mente."

SUBSÍDIO

No início dos anos 2000, o Estado passou a subsidiar um terço do valor total das operações, que variam entre US$ 8 mil e US$ 10 mil.

A adolescente Sara quer candidatar-se a esse benefício. Ela deu o primeiro passo rumo ao sonho de virar homem numa manhã recente, ao apresentar-se de tênis e calça baggy numa clínica de Teerã credenciada para atender transexuais.

Nervosa e agitada na sala de espera, ela não quis falar com a Folha. A avó, que a criou desde a separação dos pais, a acompanhava.

"Ela nunca rezou, mas fez promessa de cumprir com as orações para o resto da vida, caso consiga ser operada", disse a avó, após Sara entrar na sala do cirurgião Bahram Mir-Jalili, pioneiro no Irã.

Formado na França, Mir-Jalili afirma que candidatos à operação passam por reiteradas sessões com médico, psicólogo e psiquiatra antes da elaboração de um parecer.

"O processo leva meses até descartar casos como esquizofrenia e selecionar apenas pessoas com transtorno profundo de identidade de gênero", diz o médico. Ele avalia em 40 mil o número de transexuais iranianos, diagnosticados ou não.

À comprovação clínica sucede o trâmite jurídico. Se declarada transexual, Sara deverá apresentar-se a um juiz, que validará ou não o parecer, após nova avaliação por médicos legistas.

Confirmado o laudo, ela poderá acionar a Organização do Bem-Estar Social, que administra os subsídios.

"O regime tem muitos problemas, mas é inegável que a assistência social funciona bem", afirma Mir-Jalili, que diz ter feito 320 mudanças de sexo nos últimos dez anos.

Um dos casos mais recentes operados pelo médico é o de uma professora de primário de 34 anos que de agora em diante se chama Daniel.

Ainda em observação após a retirada dos seios e colocação de prótese peniana, Daniel espera com ansiedade a emissão da nova identidade.

Mas teme voltar para a cidade de interior onde vive. "Meu pai e irmãos não sabem da cirurgia, só contei para a minha mãe e uma irmã."

Daniel afirma que continuará usando véu na escola em que trabalha enquanto espera ser removido para outra cidade, onde pretende começar do zero a vida como homem, ao lado da namorada.

PRECONCEITO

O preconceito é queixa unânime dos transexuais no Irã. Roya, 34, não conseguiu emprego desde que tornou-se mulher, há quatro anos.

"Só poderei trabalhar num lugar em que ninguém desconfie do meu passado", diz a transexual, que voltou a ter voz masculina após interromper o tratamento com hormônios devido às graves perturbações de humor.

Outra transexual chamada Roya, loira artificial de 27 anos carregada de batom rosa choque, diz não precisar trabalhar, pois o marido ganha bem. Mas diz sofrer assédio dos policiais toda vez que é levada para a delegacia.

"Quando percebem que sou transexual, me oferecem dinheiro por sexo. Uma vez o delegado quis transar comigo mesmo sabendo que meu marido me esperava lá fora."
Todos os transexuais iranianos ouvidos pela Folha, incluindo os que se disseram muçulmanos devotos, relataram problemas com a família. "Rezo todo dia para minha mãe me aceitar e para conseguir o dinheiro da operação", emociona-se Mahsa, 25, que vive no limbo dos transexuais clinicamente reconhecidos, mas sem condições de arcar com a cirurgia.

Mahsa namora Ahura, 18, na mesma situação. Ele já se considera mulher e anda na parte feminina dos transportes públicos. Ahura não usa véu e tem pelo no rosto de tanto injetar testosterona.

"Há sempre alguém insultando Mahsa quando andamos na rua. Queria partir para cima, mas não tenho força de homem", diz Ahura, cuja mãe acaba de recuar da decisão de pagar sua cirurgia.

Após várias tentativas de suicídio, Mahsa e Ahura vivem de favor na casa de amigos. Juram não ter vida sexual. "De que jeito? Não reconhecemos nossos órgãos sexuais. Só ficaremos à vontade depois de operados", diz Mahsa. Ela deseja ter uma vagina criada a partir de um pedaço de intestino, conforme técnica do doutor Mir-Jalili.

Já Ahura quer um formato de pênis que privilegie a sensibilidade em detrimento da forma. Mas o casal foi alertado por amigos sobre a má qualidade das operações iranianas. "Passei por três cirurgias para corrigir a primeira", diz Roya, a solteira.

Uma transexual operada confidenciou um sentimento amplamente compartilhado em silêncio: "Não teria mutilado meu corpo se a sociedade tivesse me aceitado do jeito que eu nasci".


De Samy Adghirni, de Teerã, Mundo, Jornal FOLHA DE SÃO PAULO