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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Burrice e ignorância


A burrice é diferente da ignorância. A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma forca da natureza (Nelson Rodrigues).

A ignorância quer aprender. A burrice acha que já sabe. A burrice, antes de tudo, é uma couraça. A burrice é um mecanismo de defesa. O burro detesta a dúvida e se fecha. 

O ignorante se abre e o burro esperto aproveita. A ignorância do povo brasileiro foi planejada desde a Colônia. Até o século 19, era proibido publicar livros sem licença da Igreja ou do governo. A burrice tem avançado muito; a burrice ganhou status de sabedoria, porque, com o mundo muito complexo, os burros anseiam por um simplismo salvador. Os grandes burros têm uma confiança em si que os ignorantes não têm. Os ignorantes, coitados, são trêmulos, nervosos, humildemente obedecem a ordens, porque pensam que são burros, mas não são; se bem que os burros de carteirinha estimulam esse complexo de inferioridade. 

A ignorância é muito lucrativa para os burros poderosos. Os burros são potentes, militantes, têm fé em si mesmos e têm a ousadia que os inteligentes não têm. Na porcentagem de cérebros, eles têm uma grande parcela na liderança do país. No caso da política, a ignorância forma um contingente imenso de eleitores, e sua ignorância é cultivada como flores preciosas pelos donos do poder. Quanto mais ignorantes melhor. Já pensaram se a ignorância diminuísse, se os ignorantes fossem educados? Que fariam os senhores feudais do Nordeste em cidades tomadas como Muricy ou o município rebatizado de Cidade Edson Lobão, antiga Ribeirinha? A ignorância do povo é um tesouro; lá, são recrutados os utilíssimos "laranjas" para a boa circulação das verbas tiradas dos fundos de pensão e empresas públicas.

Como é o "design" da burrice? A burrice é o bloqueio de qualquer dúvida de fora para dentro, é uma escuridão interna desejada, é o ódio a qualquer diferença, à qualquer luz que possa clarear a deliciosa sombra onde vivem. O burro é sempre igual a si mesmo, a burrice é eterna como a pedra da Gávea (Nelson Rodrigues).

De certa forma, eu invejo os burros. Como é seu mundo? Seu mundo é doce e uno, é uma coisa só. O burro sofre menos, encastela-se numa só ideia e fica ali, no conforto, feliz com suas certezas. O burro é mais feliz.

A burrice não é democrática, porque a democracia tem vozes divergentes, instila dúvidas e o burro não tem ouvidos. O verdadeiro burro é surdo. E autoritário: quer enfiar burrices à força na cabeça dos ignorantes. O sujeito pode ser culto e burro.

Quantos filósofos sabem tudo de Hegel ou Espinoza e são bestas quadradas? Seu mundo tem três ou quatro verdades que ele chupa como picolés. O burro dorme bem e não tem inveja do inteligente, porque ele "é" o inteligente.

Mesmo inconscientemente, aqui e lá fora, a sociedade está faminta de algum tipo de autoritarismo. A democracia é mais lenta que regimes autoritários. Sente-se um vazio com a democracia - ela decepciona um pouco as massas. Assim, apelos populistas, a invenção de "inimigos" do povo, divisão entre "bons" e "maus" surte efeito. Surge na política a restauração alegre da burrice. Isso é internacional. Bush se orgulhava de sua burrice. Uma vez, ele disse em Yale: "Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA". E aí, invadiu o Iraque e escangalhou o Ocidente. E está impune, quando deveria estar em cana perpétua.

Aqui, também assistimos à vitória da testa curta, o triunfo das toupeiras. O bom asno é sempre bem vindo, enquanto o "pernóstico" inteligente é olhado de esguelha. A burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice dá mais dinheiro; é mais "comercial".

Em nossa cultura, achamos que há algo de sagrado na ignorância dos pobres, uma "sabedoria" que pode desmascarar a mentira "inteligente" do mundo. Só os pobres de espírito verão a Deus, reza nossa tradição. Existe na base do populismo brasileiro uma crença lusitana, contrarreformistas, de que a pobreza é a moradia da verdade.

No Brasil, há uma grande fome de "regressismo", de voltar para a "taba" ou para o casebre com farinha, paçoca e violinha. E daí viriam a solidariedade, a paz, num doce rebanho político que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz, das pestes e, claro, dos "canalhas" neoliberais. É a utopia de cabeça para baixo, o culto populista da marcha a ré.

Nosso grande crítico literário Agripino Grieco tinha frases perfeitas sobre os burros. "A burrice é contagiosa; o talento, não" ou "Para os burros, o 'etc' é uma comodidade..." ou "Ele não tem ouvidos, tem orelhas e dava a impressão de tornar inteligente todos os que se avizinhavam dele", "Passou a vida correndo atrás de uma ideia, mas não conseguiu alcançá-la", "Ele é mais mentiroso que elogio de epitáfio", "No dia em que ele tiver uma ideia, morrerá de apoplexia fulminante".

Vi na TV um daqueles bispos de Jesus, de terno e gravata, clamando para uma multidão de fiéis: "Não tenham pensamentos livres; o Diabo é que os inventa!".

Entendi que a liberdade é uma tortura para desamparados. Inteligência é chata; traz angústia com seus labirintos. Inteligência nos desorganiza; burrice consola. A burrice é a ignorância ativa, é a ignorância com fome de sentido.

Nosso futuro será pautado pelos burros espertos, manipulando os pobres ignorantes. Nosso futuro está sendo determinado pelos burros da elite intelectual numa fervorosa aliança com os analfabetos.

Como disse acima, a liberdade é chata, dá angústia. A burrice tem a "vantagem" de "explicar" o mundo. O diabo é que a burrice no poder chama-se "fascismo".

De Arnaldo Jabor, ESTADÃOgues).
A ignorância quer aprender. A burrice acha que já sabe. A burrice, antes de tudo, é
uma couraça. A burrice é um mecanismo de defesa. O burro detesta a dúvida e se
fecha.
O ignorante se abre e o burro esperto aproveita. A ignorância do povo brasileiro foi
planejada desde a Colônia. Até o século 19, era proibido publicar livros sem licença
da Igreja ou do governo. A burrice tem avançado muito; a burrice ganhou status
de sabedoria, porque, com o mundo muito complexo, os burros anseiam por um
simplismo salvador. Os grandes burros têm uma confiança em si que os ignorantes
não têm. Os ignorantes, coitados, são trêmulos, nervosos, humildemente obedecem
a ordens, porque pensam que são burros, mas não são; se bem que os burros de
carteirinha estimulam esse complexo de inferioridade.
A ignorância é muito lucrativa para os burros poderosos. Os burros são potentes,
militantes, têm fé em si mesmos e têm a ousadia que os inteligentes não têm. Na
porcentagem de cérebros, eles têm uma grande parcela na liderança do país. No
caso da política, a ignorância forma um contingente imenso de eleitores, e sua
ignorância é cultivada como flores preciosas pelos donos do poder. Quanto mais
ignorantes melhor. Já pensaram se a ignorância diminuísse, se os ignorantes
fossem educados? Que fariam os senhores feudais do Nordeste em cidades
tomadas como Muricy ou o município rebatizado de Cidade Edson Lobão, antiga
Ribeirinha? A ignorância do povo é um tesouro; lá, são recrutados os utilíssimos
"laranjas" para a boa circulação das verbas tiradas dos fundos de pensão e
empresas públicas.
Como é o "design" da burrice? A burrice é o bloqueio de qualquer
das possibilidades. A burrice é uma forca da natureza (Nelson Rodrigues).
A ignorância quer aprender. A burrice acha que já sabe. A burrice, antes de tudo, é
uma couraça. A burrice é um mecanismo de defesa. O burro detesta a dúvida e se
fecha.
O ignorante se abre e o burro esperto aproveita. A ignorância do povo brasileiro foi
planejada desde a Colônia. Até o século 19, era proibido publicar livros sem licença
da Igreja ou do governo. A burrice tem avançado muito; a burrice ganhou status
de sabedoria, porque, com o mundo muito complexo, os burros anseiam por um
simplismo salvador. Os grandes burros têm uma confiança em si que os ignorantes
não têm. Os ignorantes, coitados, são trêmulos, nervosos, humildemente obedecem
a ordens, porque pensam que são burros, mas não são; se bem que os burros de
carteirinha estimulam esse complexo de inferioridade.
A ignorância é muito lucrativa para os burros poderosos. Os burros são potentes,
militantes, têm fé em si mesmos e têm a ousadia que os inteligentes não têm. Na
porcentagem de cérebros, eles têm uma grande parcela na liderança do país. No
caso da política, a ignorância forma um contingente imenso de eleitores, e sua
ignorância é cultivada como flores preciosas pelos donos do poder. Quanto mais
ignorantes melhor. Já pensaram se a ignorância diminuísse, se os ignorantes
fossem educados? Que fariam os senhores feudais do Nordeste em cidades
tomadas como Muricy ou o município rebatizado de Cidade Edson Lobão, antiga
Ribeirinha? A ignorância do povo é um tesouro; lá, são recrutados os utilíssimos
"laranjas" para a boa circulação das verbas tiradas dos fundos de pensão e
empresas públicas.
Como é o "design" da burrice? A burrice é o bloqueio de qualquer

sábado, 12 de janeiro de 2013

Dez anos depois, população pobre do País permanece refém de programas de renda

Hotel construído para receber visitantes em Guaribas está abandonado


Estudo do Cebrap mostra que, apesar do enorme avanço registrado no combate à miséria durante a última década, desigualdade entre classes altas e baixas ainda é grande no Brasil, e oportunidades se mantêm reduzidas para quem vive do Bolsa Família


Implantados há uma década, os planos de combate à miséria dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff têm registrado sucesso em dois aspectos: a ampliação dos benefícios de transferência de renda à maioria das famílias mais necessitadas, garantindo alívio imediato, e a melhoria de indicadores sociais. Eles patinam, porém, quando se trata de aumentar as oportunidades de inclusão no mercado de trabalho.
Uma das cidades que simbolizam essas políticas, Guaribas, no interior do Piauí, espelha tal realidade, conforme constatou a reportagem do Estado. Foi ali que, em fevereiro de 2003, logo após a posse do presidente Lula, o então ministro do Combate à Fome, José Graziano, formalizou o lançamento do Programa Fome Zero, proposta de campanha de Lula que prometia erradicar a fome no País a partir de uma série de ações coordenadas. A escolha para o lançamento era precisa. Tratava-se da mais miserável das cidades do Piauí, o Estado mais pobre do Brasil.
Após desembarcar na cidade, Graziano distribuiu os primeiros 50 cartões do programa e previu: “Quero voltar aqui em quatro anos e dizer que vocês não precisam mais do cartão (Alimentação) porque a fome acabou.” O programa Fome Zero fracassou, mas logo foi substituído pelo bem sucedido Bolsa Família.
Passados dez anos, as melhorias para os 4.401 habitantes são notáveis:
Guaribas ganhou água encanada, agências bancárias, uma unidade básica de saúde, mais escolas e ruas calçadas. Os índices de mortalidade infantil e de analfabetismo caíram, o grau de aproveitamento escolar subiu e a fome praticamente desapareceu. Ao contrário do que previu Graziano, porém, a dependência do cartão de benefícios só aumentou.
‘Nem pensar’. Guaribas tem 956 famílias pobres vinculadas ao Bolsa Família - o que representa 87% do total da população. O maior temor dos moradores é o fim do programa. “Ave Maria, nem pense numa coisa dessas. A gente ia viver de quê? Todo mundo ia morrer de fome. Eu era uma”, diz Márcia Alves, que tem 31 anos, dois filhos, e recebe R$ 112 mensalmente do governo.
...
Observa, por exemplo, que quando se fala na elevação do nível de emprego, não se menciona que, de cada dez postos de trabalho que surgem no mercado formal, nove têm remuneração inferior a três salários mínimos.
Os avanços obtidos até agora, segundo o texto, não terão sustentabilidade se não forem acompanhados de uma política industrial capaz de absorver trabalhadores mais qualificados e propiciar elevações reais da renda; e se não criar condições de maior mobilidade nas zonas mais pobres.
Sem iniciativas adequadas, sinaliza o estudo, os programas de transferência de renda podem, em vez de reduzir desigualdades, acentuá-la. Numa cidade do Nordeste, com grande número de dependentes de programas de transferência de renda, os maiores beneficiários serão, por essa avaliação, o comerciante local e as indústrias do Sul e do Sudeste, fornecedoras dos produtos que ele vende.
...
Dez anos depois do início do já esquecido Fome Zero, as coisas não são as mesmas em Guaribas. Mas a estrada para uma vida melhor continua pedregosa. (...)

De Roldão Arruda e Lisandra Paraguassu, Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"Dá nojo de político, dá nojo desta gente bandida"


Cantor correu para o bairro quando soube da tragédia e ajudou seus vizinhos


Morador de Xerém, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense durante 20 anos, o cantor e compositor Zeca Pagodinho esteve na região afetada na manhã desta quinta-feira (3) para visitar seu sítio, que fica muito próximo da região do Café Torrado (a mais afetada de Xerém) e para ajudar amigos de longa data.
Usando um quadriciclo motorizado, o cantor passou o dia circulando pelas ruas enlameadas e ajudando seus vizinhos atingidos pelas chuvas. Ao dar entrevistas ás equipes de televisão, não escondia sua comoção com o que estava acontecendo aos moradores do distrito. Em certo momento, seu desabafo foi forte:
"É muito ruim ver Xerém assim", disse o sambista em entrevista à TV Bandeirantes. "Tem muita gente pobre, muita gente sofredora e tem o lixo para infernizar mais ainda a vida. Eu tenho carro, mas tem gente que não tem. O único caminho que sobrou(depois dos deslizamentos de terra) é lixo puro. Dá nojo de político, dá nojo desta gente bandida", disse ele numa clara referência à irregularidade na coleta de lixo . 
Logo após chegar em seu sítio em Xerém na manhã desta quinta (3) e se deparar com o cenário de destruição, Pagodinho passou a divulgar na rede social Facebook uma campanha para angariar donativos.

De Rio, Jornal DO BRASIL