Na ligação, seu supervisor a convocou para uma reunião na manhã
seguinte. Mas mal sabia ela que o verdadeiro objetivo do encontro não
seria definir os detalhes de mais uma campanha de vacinação, na qual ela
iria trabalhar imunizando as pessoas, como inicialmente lhe foi
informado.
Begum e outras 16 agentes de saúde paquistanesas se tornaram
peças-chave na caçada por aquele que, na época, era o fugitivo mais
procurado do mundo: Osama Bin Laden.
Elas participaram de uma campanha de vacinação
falsa, coordenada pelo médico Shakeel Afridi e concebida pela CIA cujo
verdadeiro objetivo era tentar coletar sangue e material orgânico
contendo o DNA dos integrantes da casa que, segundo suspeitas
confirmadas da inteligência americana, servia de esconderijo para o
líder da Al-Qaeda.
Bin Laden foi morto em maio de 2011 por um
esquadrão de elite americano em uma operação secreta no distrito de
Abbottabad, na província de Khyber Pakhtunkhwa (norte do Paquistão).
Mas desde então, as 17 agentes de saúde que
participaram da campanha de vacinação falsa têm vivido sob ameaças.
Todas perderam seus empregos e agora são consideradas "traidoras" em seu
país.
Os serviços de inteligência paquistaneses
prenderam Afridi, que trabalhava para o departamento de saúde de Khyber
Pakhtunkhwa, e o acusaram de colaborar com a CIA.
Além disso, em fevereiro de 2012, o departamento
de saúde de Khyber Pakhtunkhwa demitiu todas as 17 profissionais que
teriam participado da campanha de vacinação usada como fachada pela
inteligência americana, acusando o grupo de trabalhar "contra o
interesse nacional".
Consequências
Como resultado, Begum vive hoje com a família em
uma casa precária de dois cômodos em Abbottabad. As paredes não têm
reboco, o telhado está cedendo e um dos quartos não tem porta.
No segundo cômodo, uma parte da parede está
coberta com cartazes de programas de planejamento familiar, cuidados
primários de saúde e campanhas de vacinação - um sinal de como o
trabalho de agente de saúde é importante para Begum.
Caçula de uma família com seis filhos, ela foi a
única que conseguiu um emprego. Nenhum dos irmãos é casado, o que
também é incomum no Paquistão - e ajudou a agravar os problemas
financeiros da família.
Desde 1996, quando Begum começou a trabalhar
como agente de saúde em sua província, ela tornou-se responsável por
comprar comida para seus pais e irmãos.
O dinheiro, porém, não foi suficiente para pagar
o tratamento da catarata de sua mãe - que está praticamente cega - e da
epilepsia de uma de suas irmãs.
"Agora que perdi meu emprego, não podemos nem pagar por duas refeições completas (por dia)", diz Begum, aos prantos.
Muitos de seus colegas enfrentam problemas semelhantes.
Problemas de saúde
"Eu costumava trabalhar com a força de sete
homens, mas agora estou esgotada", diz a também agente de saúde Akhtar
Bibi, de 49 anos.
Bibi foi acusada de ser do "círculo de
confiança" de Afridi e de ter sido uma das profissionais que de fato
entrou no esconderijo de Bin Laden para obter amostras de sangue de seus
residentes.
Ela nega as acusações, mas conta que foi interrogada por agentes de inteligência paquistaneses após a prisão de Afridi, em 2011.
"Foi depois disso que eu comecei a sofrer de
hipertensão. E tudo piorou quando meu marido me deixou e foi morar com
sua segunda esposa. Ele diz que eu fiquei estigmatizada", conta Bibi.
A ex-agente de saúde agora trabalha como empregada doméstica ganhando pouco mais de US$ 1 por dia.
"Afridi não nos obrigou a nada. Foi o
departamento de saúde de nossa província que nos instruiu a trabalhar
sob suas ordens", diz Bibi.
"Na reunião de 16 de março de 2011, vários
funcionários do alto escalão do departamento estavam presentes. E foram
eles que fizeram de Afridi o coordenador desse programa."
Bibi, Begum e outras de suas colegas dizem que
não sabiam que a campanha de vacinação para a qual foram recrutadas
serviria para encobrir um plano da CIA para confirmar o paradeiro de Bin
Laden.
Na reunião, Afridi teria dito às agentes de
saúde que o objetivo da campanha era imunizar mulheres de 15 e 49 anos
contra a hepatite B nas cidades de Nawanshehr e Cidade Bilal, no
distrito de Abbottabad.
Campanha
Bibi diz que a primeira etapa da campanha,
realizada em 16 e 17 de março, envolveu 15 profissionais de saúde e se
concentrou em Nawanshehr.
Esta é a área da qual outro líder da al-Qaeda,
Abu Faraj al-Libbi, teria escapado em 2004, após quase ser capturado
pelo serviço de inteligência paquistanês.
Segundo Bibi, mais duas campanhas de vacinação
foram realizadas na região: uma de 12 a 14 de abril e outra nos dias 20 e
21 do mesmo mês.
A última se concentrou na Cidade Bilal, onde o esconderijo de Bin Laden foi localizado.
"Nove agentes de segurança cobriram a área de Cidade Bilal em dois
dias. O doutor Afridi supervisionou pessoalmente a campanha. Ele havia
alugado duas vans para nós e também usou um carro oficial do
departamento de saúde", conta a paquistanesa.
Segundo Bibi, ela, Afridi e outra profissional
de saúde teriam batido na porta da casa que seria o esconderijo de Bin
Laden, mas ninguém os atendeu.
Ela diz não saber como Afridi terminou
conseguindo as amostras dos habitantes do local, mas se lembra de ter
ouvido ele dizer que era "muito importante" imunizar as pessoas daquela
casa.
Desconhecimento
Não está claro se Afridi sabia que tipo de informação seria tirada das amostras de DNA que o grupo estava recolhendo.
No ano passado, as 17 profissionais de saúde
entraram com um recurso em um tribunal paquistanês contra sua demissão,
alegando que teriam sido usadas como "bodes expiatórios" por altos
funcionários do departamento de saúde de sua província.
Em março, o tribunal ordenou a reintegração das demitidas, mas autoridades locais dizem ainda não ter decidido se irão recorrer.
Uma grande preocupação das agentes de saúde,
porém, é que elas até podem obter os seus empregos de volta, mas será
mais difícil se livrar das ameaças e estigmatização social.
Por medo de represália, a maioria das
paquistanesas contactadas pela BBC se recusou a falar sobre o caso.
Outras pediram para não serem fotografadas ou não terem seus nomes
publicados.
A entrevista com Bibi teve de ser feita em um
local "secreto", longe dos olhos de vizinhos e conhecidos. "Minha vida
está em perigo", explicou ela. "A minha e a de todas nós."
De M Ilyas Khan, Paquistão, agência BBC BRASIL