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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Análise: Indústria cresce agora, mas é difícil haver bons resultados futuros



O resultado da indústria deixou um cheiro de que "agora vai" no ar. Os números negativos continuam negativos, mas em proporção menor, vide a pequena queda de 0,5% no primeiro trimestre contra o mesmo período do ano anterior.

Isso ajudará muito pouco no PIB, que deve crescer magros 1,8% na mesma comparação e parcos 2,5% no ano. Mas por que números tão baixos ainda?

Ainda há certa concentração na recuperação, especialmente nos setores de caminhões e tratores. Para os primeiros continuam valendo os efeitos estatísticos de um 2012 muito fraco por mudanças na configuração dos motores usados. Para tratores, vale o efeito da supersafra e da observação cada vez mais óbvia de que resta apenas a agropecuária como setor competitivo no país.

Além disso, a indústria começa a ter leve recuperação em um momento de comércio começando a fraquejar e cenário internacional ainda de lado, especialmente com dados ambíguos na economia americana, sem falar na Europa que continua em crise. As desvalorizações no Japão, que podem instigar desvalorizações em outros países asiáticos, dificultam ainda mais nossas exportações.

Aqui na América do Sul, dois parceiros importantes para nossas exportações de manufaturados, Argentina e Venezuela, devem ter ano de crise. Vale lembrar que a Argentina está com o câmbio paralelo passando de 70% de diferença em relação ao oficial. Uma mega depreciação por aquelas bandas não pode ser descartada ainda este ano.
Isso sem falar que México tem grande potencial de ganhar mercado em cima do Brasil. 
Basta dizer que o custo unitário do trabalho naquele país já se iguala ao chinês.

E, por fim, a cereja do bolo, é que a indústria brasileira continuará sendo pouco competitiva pelos velhos problemas de sempre, desde o custo do trabalho proibitivo até a infraestrutura em crise sem fim.

Com essa barafunda de problemas, é difícil esperar bons resultados não apenas para 2013, mas a perder de vista. Mudar esse cenário demandará uma mudança radical de política econômica, que, infelizmente, não deve acontecer.


De Sérgio Vale, jornal FOLHA DE SÃO PAULO

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A miséria dos números que ninguém entende


BRASÍLIA E RECIFE — A promessa da presidente Dilma Rousseff de erradicar a miséria até 2014 continua de pé, mas o tamanho do desafio mudou — sem maiores explicações por parte do governo. Quando lançou o programa Brasil sem Miséria, em junho de 2011, Dilma dizia que era preciso resgatar 16,2 milhões de brasileiros da pobreza extrema. O número tinha origem no censo do IBGE, de 2010. Nas últimas semanas, porém, ela tem afirmado que os programas sociais já retiraram da miséria 19,5 milhões de pessoas nos últimos dois anos. Ou seja, 3,3 milhões a mais do que o número informado por ela mesma.

Isso não significa que a pobreza extrema tenha acabado: desde dezembro, Dilma passou a dizer que ainda falta atender, pelo menos, outros 2,5 milhões de miseráveis. O que elevaria para 22 milhões de pessoas o universo de extremamente pobres na mira do governo, no atual mandato. Portanto, 5,8 milhões a mais do que os 16,2 milhões de miseráveis identificados pelo Censo de 2010.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, os números usados por Dilma têm origem no Cadastro Único (CadÚnico), lista oficial da população de baixa renda produzida pelas prefeituras, que são encarregadas de coletar os dados. Diferentemente do IBGE, que obtém informações para fins estatísticos, o CadÚnico é a porta de acesso ao Bolsa Família. Os dados do CadÚnico são chamados de registros administrativos e devem ser atualizados a cada dois anos. De novo, pelas 5,5 mil prefeituras.

O ministério diz que o cadastro foi modernizado ao longo de 2011, e constitui atualmente uma fonte mais apropriada para medir a “pobreza longitudinal” no país. Assim, quando Dilma afirma que 19,5 milhões de pessoas saíram da miséria, passando a viver com renda familiar per capita superior a R$ 70, está se referindo aos registros do CadÚnico.

Segundo o ministério, antes do lançamento do Brasil sem Miséria, em 2011, havia 22,1 milhões de extremamente pobres, conforme o CadÚnico. Na ocasião, porém, o governo optou por utilizar os números do IBGE, que indicavam 16,2 milhões nessa situação.

O conceito de miséria adotado pelo governo é exclusivamente monetário: famílias com renda por pessoa de até R$ 70 mensais são classificadas como extremamente pobres. É o caso de Rosângela Maria das Neves, de 30 anos, moradora de uma favela no bairro do Pina, em Recife. Analfabeta, com quatro filhos para criar, ela nunca teve emprego formal, e seu último trabalho lhe rendia R$ 50 por semana. Foi despedida desde que engravidou e agora, com um bebê de apenas oito dias, só tem uma fonte de renda: os R$198 que recebe do Bolsa Família.
Sua vida só não é pior porque não paga aluguel. Quando a mãe morreu, deixou uma casa de dois cômodos para a filha. O chão é de terra batida, falta água encanada e banheiro, mas antes do aterro a situação era pior.

— A cada chuva, as panelas ficavam boiando ao redor da cama e a água batia na canela — lembra.

Ela diz que o dinheiro que recebe do governo mal dá para comer e que, muitas vezes, recorre ao irmão, pescador, para alimentar a família.

Em meio à dança de números, Dilma prometeu anteontem que o universo remanescente de 2,5 milhões de miseráveis deixará a pobreza extrema até março. Ela não explicou como isso será feito. Para produzir tamanho resultado em menos de dois meses, só há um caminho: criar uma nova modalidade de repasse do Bolsa Família ou de seu congênere, o Brasil Carinhoso, que dá benefícios adicionais ao público do Bolsa Família.

Ex-economista sênior do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Flávio Comin, atualmente professor na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, diz que os dados sobre miseráveis no Brasil são dissonantes: há divergência até mesmo entre o Censo e a Pnad do IBGE. Ele critica o conceito de miséria adotado pelo governo:

— Todas essas estimativas compartilham o mesmo entendimento de que os pobres são aqueles que sofrem de insuficiência de renda. Esquecem, assim, que pessoas que estão acima da linha da pobreza oficial, mas que não dispõem de acesso à saúde ou educação dignas, também deveriam ser considerados pobres — diz Comin, por e-mail.


De Demétrio Weber, Letícia Lins, País, jornal O GLOBO