O deputado Marco Feliciano não é o único parlamentar no lugar errado.
Ele causa escândalo na Comissão de Direitos Humanos e Minorias por
razões óbvias e chama muita atenção por ser caricato e histriônico. Mas é
também um despropósito o senador Blairo Maggi na Comissão de Meio
Ambiente ou parlamentares réus na Comissão de Constituição e Justiça.
O
que aconteceu é que as comissões deixaram de representar os interesses
daqueles que deveriam estar representados e passaram a ser barricadas
tomadas de assalto pelos que são contrários aos interesses defendidos.
O
senador Blairo Maggi, desde que foi acusado de ser “estuprador da
floresta” pela imprensa estrangeira, tem lutado contra o estigma de
desmatador. No seu governo houve avanços, mas ao mesmo tempo ações do
Ministério Público mostraram que ele manteve áreas de sombra.
Comemore-se o avanço pragmático do senador, mas não há mágica
transformista que o faça um ambientalista. Também causa estranheza a
presença na comissão dos fazendeiros Kátia Abreu e Ivo Cassol.
Por
que Maggi quis ser presidente da Comissão de Meio Ambiente e os outros,
integrantes? Para melhor impedir qualquer avanço ambientalista que
contrarie os interesses daqueles que realmente defendem e que são o
grupo ao qual pertencem: os ruralistas.
O mesmo acontece com
pessoas que estão hoje respondendo a processos na Justiça, ou já são
réus condenados, e querem assento na Comissão de Constituição de
Justiça, como José Genoino, João Paulo Cunha, Eduardo Cunha, e o nome
que parece brincadeira de mau gosto: Paulo Maluf.
O deputado
Feliciano diz que os negros são amaldiçoados. Essa afirmação, pelas leis
brasileiras de um estado laico, é crime de racismo. Ele deveria estar
respondendo por isso. A intolerância militante que pratica contra os
homossexuais faz dele uma pessoa totalmente errada para estar numa
comissão cujo nome é Direitos Humanos e Minorias.
A imprensa se
refere a ele como “pastor”. Há pastores e pastores. Hoje, evangélicos e
protestantes são 22% da população brasileira e evidentemente só um grupo
minoritário pensa como ele. Para as denominações que vieram da Reforma
de Lutero, no século XVI, o posto de pastor se atinge após um difícil e
longo curso de teologia nos seminários, em que as interpretações da
Bíblia passam por várias disciplinas, inclusive comparações com textos
antigos em grego, hebraico e latim.
As novas denominações
religiosas evangélicas, pentecostais ou não, têm níveis de formação
diferenciados com mais ou menos teoria. Alguns bem improvisados. Mas os
que têm aparecido com mais destaque na imprensa são os grupos que
cometem erros como os da exploração da fé dos mais pobres, ou os que
fazem sustentações doutrinárias controversas.
Quem os iguala a
todos não compreenderá o movimento da sociedade brasileira no qual o
catolicismo perdeu 10 pontos percentuais de fiéis a cada década nos
últimos 20 anos. Essa tendência de redução tem sido consistente desde os
anos 1970. O próprio catolicismo vive imerso em ideias ultrapassadas
como a da negação de controle da natalidade, mesmo por métodos de
proteção da saúde, como a camisinha.
As religiões precisam se
modernizar de forma geral. Mas as denominações protestantes
tradicionais, e os evangélicos que não comungam com as ideias do
deputado Feliciano, têm dado pouca ênfase à necessária separação entre
joio e trigo.
O debate laico, que é o que interessa à coluna, deve
se centrar na tomada de assalto das comissões por parlamentares que são
contrários aos interesses representados. Isso é uma distorção e
enfraquecerá as funções do Parlamento. Ele existe para que os debates
setoriais possam ser realizados de forma democrática e com os interesses
sendo representados nas comissões certas.
De Miriam Leitão, jornal O GLOBO